domingo, 20 de abril de 2014

Resenha: A Paixão de Cristo

Danilo Eburneo
Acadêmico de Relações Internacionais da Unama



Título Original: The Passion of the Christ
Ano: 2004
Direção: Mel Gibson
Duração: 127 minutos
Gênero: Drama
País de Origem: EUA



“Ele foi ferido por nossas transgressões, esmagado por nossos pecados. Pelas suas feridas fomos curados”. Isaias 53.

É com esse trecho bíblico que A Paixão de Cristo de Mel Gibson introduz o filme ao cortar para a cena de Jesus no jardim de Getsêmani, pouco antes de sua prisão, angustiado pelos acontecimentos que viriam junto com a sua dor. Esse início mostra o que o filme vai tratar nas próximas duas horas de exibição, que é a representação da figura de Cristo não apenas para sua época, mas para a humanidade.  
Inicialmente planejado para ser um filme sem fala alguma, Mel Gibson queria que o longa fosse representado apenas por imagens sobre a relação de Jesus com seus familiares e com a humanidade no geral, mas claro que Hollywood não permitiu que um filme de orçamento relativamente alto corresse o risco de fracassar na bilheteria por não apresentar texto. Sendo assim, a decisão foi que o filme seria falado quase que completamente em Aramaico (Língua falada por Jesus na sua respectiva época) e em Latim, quando se tratava de conversas Romanas, o que tornou o filme bem mais interessante.
Mesmo assim, poucas são as falas do filme. No geral, facilitado para os atores, ao falarem uma língua totalmente desconhecida, principalmente para Jim Caviezel (Person Of Insterest, O Conde de Monte Cristo) que na pele de Jesus, tem no máximo uma página de texto.
Claro que isso não tira o mérito do ator, que “compensa” a falta de texto com sua atuação corpórea nas cenas de tortura e algumas conversas feitas com Romanos. Atuação que foi muito bem feita, por sinal, sempre tendo os olhos calmos em meio a todo o sangue tirado do corpo de Jesus. Isso nos faz levar a própria polêmica na época do lançamento do filme, que foi o exagero da violência nas cenas de tortura. Diversos closes são feitos nas feridas do corpo de Jesus, principalmente quando as armas e instrumentos de tortura perfuram sua pele.
A preocupação em mostrar a tortura é mais simbólica do que física, já que biblicamente, naquele momento, Jesus estava não só carregando aquela cruz física, mas também todo o pecado do mundo, que certamente doía muito mais do que qualquer chicote ou lança perfurando o seu corpo.
E essa santidade representada pela tortura pública se contrapõe na imagem de Satanás (Rosalinda Celentando) que aparece sendo uma figura sem sexo definido aparente, andando apenas por trás da população, se escondendo enquanto acompanhava o martírio de Cristo, com uma felicidade estranha no rosto, inclusive zombando em uma cena que ela aparece com um macabro bebê no colo, fazendo alusão ao Filho de Deus que aparentemente foi abandonado pelo Pai.
Naturalmente o filme não pode ser fiel à narração bíblica, pois além de ser uma mídia diferente, devem existir licenças que possam ser convenientes a narrativa. Um desses casos é sobre Judas, que após entregar Jesus, é atormentado por Satanás personificado em crianças com rostos disformes, juntando com o desespero do arrependimento e levando-o ao suicídio. Da mesma forma, Pilatos demonstra dúvida sobre a veracidade do que Jesus lhe falara, sendo esta uma interpretação do roteirista para o trecho bíblico, o qual diz que Pilatos não viu culpa alguma naquele homem.
É importante inclusive deixar claro que Roma, na época, não tinha nenhuma preocupação com Jesus, e que ele não fez uma revolução pública tão grande como alguns cristãos acham que fez. Na verdade, se ele arrastava alguma multidão consigo, eram poucas pessoas, tanto que não incomodou o governo de nenhuma forma. E certamente, César não teve conhecimento algum sobre a história, já que, sem dúvida alguma, tinha coisas muito mais importantes para resolver do que se preocupar com um “louco que se dizia Filho de Deus”.
A fotografia de Caleb Deschanel é muito bonita e principalmente inteligente, usando cores para complementar o simbolismo (Como na cena em que a câmera foca o céu representando a santidade de Jesus, e logo abaixa, mostrando o vermelho, para caracterizar o sacrifício que será feito). 

No fim das contas, com uma equipe técnica bem competente que cobre algumas falhas de direção pontuais de Gibson, o filme se mostra interessante, mesmo que ele seja bem “político” ao misturar diversas religiões para atender a gregos e troianos (Que vai da implementação bem sutil da santidade de Maria, passando pelo Santo Sudário até o incrédulo José de Arimatéia).
Para quem não assistiu (o que eu duvido muito) eu indico, sendo cristão ou não, mas saiba que tem um espetáculo de violência, de certa forma até desnecessária, no geral, para passar uma mensagem que é conhecida em todo o mundo ocidental. Mas é bem melhor do que ver àqueles filmes de Jesus que passam na Record as 3h da tarde.

Boa Páscoa a todos e próximo filme voltaremos com as bombas e as ameaças do Sistema Internacional!
Até mais! 

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