sexta-feira, 19 de julho de 2013

As possibilidades para o Egito pós-Morsi?

Caio Rebelo
Acadêmico do 6º semestre

            A situação no Egito ilustra bem os problemas enfrentados por diversos países que, depois de deporem governos autoritários ou ditatoriais, agora buscam a redemocratização. Após a deposição de Mubarak, os vários segmentos que cooperaram para derrubar o antigo regime (liberais de esquerda, islamitas conservadores, cristãos cooptas etc.) passaram a disputar o poder entre si, e o fato de que nenhum dos principais segmentos – a esquerda liberal e os conservadores muçulmanos – representa a maioria incontestável da população apenas agravou a situação.
            A recusa do governo Morsi, alinhado com a Irmandade Muçulmana e os demais segmentos tradicionalistas, de incluir efetivamente a oposição no processo decisório acabou deflagrando uma crise de governabilidade no país, o que levou a uma nova onda de protestos que culminou no ultimato das Forças Armadas e a sua deposição, seguida pela nomeação de um governo provisório, que conta com o antigo chefe da Suprema Corte Constitucional do Egito, Adly Mansour como presidente e o Nobel da Paz em 2005, Mohamed ElBaradei como vice.
            A intervenção dos militares no cenário político egípcio, infelizmente algo recorrente na história recente do país, pode, sob uma justificativa qualquer, abrir um precedente perigoso no país e na região, pois ao colocar o processo constitucional em segundo plano e excluir a sociedade civil do campo decisório cria-se a possibilidade – caso o impasse entre laicos e fundamentalistas se agrave – de uma nova era de governos autocráticos, usando a manutenção da ordem como forma de justificar sua legitimidade.
            Por outro lado, as manifestações que reuniram milhares de simpatizantes do presidente deposto nesta sexta-feira (19/07), bem como demonstrações de apoio em outros países da região, particularmente na Faixa de Gaza, podem sinalizar uma nova onda de protestos em resposta ao golpe, desta vez movida pelos grupos fundamentalistas, que pode ser uma bomba em vias de ser armada, motivo pelo qual os países laicos da região, como a Turquia ou potências militares como Israel, assim como potências como os Estados Unidos olham para a questão com receio e cautela, especialmente levando em conta o peso geopolítico que o Egito tem na região, tanto como potência regional e aliado norte-americano quanto como rota de acesso marítimo via Suez, muito embora a presença de ElBaradei como encarregado da política externa do país tenha sido vista com otimismo internacionalmente.
            A necessidade ou não de um golpe no governo Morsi é uma questão complexa e que requer uma profunda análise por parte das Relações Internacionais. Seus impactos ainda são difíceis de serem previstos com exatidão. O governo de transição terá de lidar com muitas variáveis de difícil controle, de forma que até o momento só é possível dizer que o futuro do governo provisório e do próprio Egito é ambíguo como o gato de Schrodinger: tanto a possibilidade de um governo democrático e mais representativo (que deverá tentar incluir mesmo os segmentos mais radicais do islamismo, tanto quanto os moderados) quanto a de um retrocesso em termos democráticos coexistem simultaneamente, de forma que apenas com as eleições legislativas e a formulação de uma nova constituição marcadas para no máximo 2014 será possível saber o que metaforicamente sairá da caixa.

REFERÊNCIAS



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